03 fevereiro 2007

"Diamante de Sangue", comentado por Benta Ferrero-Waldner, Comissária Europeia para as Relações Externas

O filme Diamante de Sangue será provavelmente a primeira ocasião em que muitos espectadores serão confrontados com a relação que existe entre esta pedra preciosa, símbolo de luxo, e a violência dramática que existe em algumas regiões do mundo.

Esta é a questão tratada no filme e é também o motivo pelo qual, em 2003, a comunidade internacional instituiu o
Processo de Kimberley, que consiste num processo de certificação que atesta a proveniência legítima dos diamantes. O filme passa-se na Serra Leoa em 1999, durante uma das mais brutais guerras civis em África, e mostra os horrores causados pelo tráfico ilícito de diamantes violência, destruição, rapto de jovens e crianças, que são drogados e transformados em assassinos.

O Processo de Kimberley destina-se a impedir que os diamantes de guerra entrem no comércio internacional legítimo de diamantes. Os 71 países membros comprometeram-se a controlar a respectiva produção e comercialização de diamantes. O cumprimento das obrigações é verificado através de visitas de inspecção no terreno e através da análise dos relatórios anuais e das estatísticas de produção e de comércio. Se um país não cumprir, pode ser excluído do programa e impedido, a partir dessa altura, de vender diamantes no mercado internacional.

O Processo Kiberley tem tido sucesso? Actualmente, a Serra Leoa está a viver em paz, como acontece com a maior parte dos países que tiveram guerras financiadas em parte pelo tráfico de diamantes: Angola, Libéria e República Democrática do Congo (RDC). Obviamente, na maior parte destes casos, a situação ainda é frágil e não devemos cometer o erro de desviar o nosso interesse só porque as armas já se calaram. O Processo de Kimberley permite que esses países possam agora utilizar o potencial de riqueza natural que representam os diamantes para contribuir para a paz e a prosperidade. Actualmente, o único caso de forças rebeldes a controlar a produção de diamantes é na Costa do Marfim.

É óbvio que os diamantes não são o único recurso a atear os conflitos. A UE já começou a pôr em prática um plano de acção, com uma lógica similar à do Processo de Kimberley, para tratar as questões relacionadas com a exploração de madeiras exóticas.

Como deve então agir uma pessoa que queira dar um presente especial ou adquiri um anel de noivado? Os consumidores podem e devem fazer perguntas antes de adquirir jóias com diamantes, exigindo informações detalhadas acerca da cadeia e fornecimento dos diamantes e um comprovativo da sua origem não relacionada com guerras.

[Excertos do artigo A importância do Processo de Kimberley publicado na Revista Actual (Expresso), em 27/01/2007]

1 Comments:

At 12:15 da tarde, Anonymous Katrin said...

Li com interesse o comentário de Benta Ferrero-Walder.
O texto tocou-me muito porque eu, como joalheira, estou confrontado com este tema desde a minha formação. Nesta, não só aprendi a trabalhar com metais e pedras preciosas, como também fiquei levemente informada sobre a sua extracção. Foi talvez um dos motivos que me levou, no meu trabalho individual, a explorar a criação de jóias através de objectos achados.
Voltando ao artigo em questão, acho muito bem chamar a atenção do consumidor. Gostaria que se desenvolvesse a preocupação, em geral, de exigir informações sobre a proveniência dos produtos a adquirir. No caso dos diamantes é urgente!
Eu pessoalmente, já não consigo comprar uma coisa sem saber a sua origem. E gosto muito mais de sair de uma loja de comércio de rua com um produto “made in Portugal” e ter conversado com o vendedor, do que ter sido vigiada por um segurança à saída de um franchising.
Felizmente há em Portugal movimentos de indivíduos e idealistas que produzem e/ou comercializam, roupa, acessórios, comida etc. de autores e produtores da vizinhança. Era muito bom vê-los crescer. Não só porque a “cenoura” sabe muito melhor, como também, para reaver um bocadinho duma liberdade que perdemos quando estamos só em mãos de multinacionais.

 

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